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Venezuela à beira do colapso: terramoto põe a nu feridas mais profundas de um Estado já no limite
Povo venezuelano está a passar por horas de angústia e incerteza sem precedentes. Após anos de divisões latentes, viu a natureza revelar as suas feridas mais profundas.
Na madrugada da última quarta-feira, a terra tremeu com uma força nunca vista desde 1900. O evento sísmico que abalou o Caribe venezuelano marca um ponto de viragem na história recente do país, não só devido à dimensão da catástrofe, mas também à fragilidade das estruturas que atingiu.
O epicentro foi registado em San Felipe, no estado de Yaracuy, a uma profundidade superficial de 13,2 quilómetros, e deixou um balanço oficial de, pelo menos, 188 mortos, com mais de mil feridos e milhares de desaparecidos. Além disso, verificaram-se danos estruturais extensos em Caracas e noutras zonas, o que tornou inoperacionais serviços essenciais, como o Aeroporto Internacional de Maiquetía.
O tremor principal atingiu 7,5 na escala de Richter e foi reclassificado pelo sistema de alerta de tsunami dos EUA como um "duplo sísmico" — um fenómeno raro em que dois grandes sismos ocorrem com apenas alguns segundos de intervalo —, deixando Caracas perante uma catástrofe que vai além da emergência humanitária que já vivia. Os analistas concordam que esta tragédia funciona como um catalisador, destacando a extrema vulnerabilidade das estruturas estatais da Venezuela.
Segundo os especialistas, a situação do país antes do terramoto já era de precariedade sistémica.
A fraqueza do executivo é, talvez, o aspeto mais preocupante para quem observa a Venezuela do exterior. Este "teste" face ao terramoto não é um assunto trivial; se a resposta se revelar um fracasso retumbante, as consequências poderão ser desestabilizadoras para o próprio governo Delcy Rodríguez, presidente interina da Venezuela desde 5 de janeiro de 2026, na sequência da captura de Nicolás Maduro pelas tropas norte-americanas dois dias antes.
A população, já exausta por anos de crise, aguarda agora para ver se a resposta oficial será capaz de a proteger ou se, mais uma vez, o Estado lhe virará as costas. "A economia venezuelana encontrava-se mergulhada numa crise profunda desde 2013, muito antes das sanções internacionais, com uma má gestão que tinha levado a pobreza das famílias a cerca de 65 por cento", afirmou Juan Manuel Trak, um cientista político venezuelano e investigador especializado em processos políticos contemporâneos, à RTVE Noticias.
É esta pobreza estrutural subjacente que leva Susana Gratius, professora de Relações Internacionais na Universidade Autónoma de Madrid, a descrever a situação atual como "catastrófica" e "a pior possível".
Alerta que o país carecia tanto de pessoal como de infraestruturas necessárias para fazer face a uma crise desta magnitude. "O país não está preparado — isso já se sabe; há falta de bombeiros — dizem que há 15.000, mas seriam necessários mais de 80.000", afirma Gratius, sublinhando a falta de recursos.
A resposta do governo pôs em evidência a falta de transparência institucional que, segundo os especialistas, caracteriza o atual regime. Embora o ministro dos Assuntos Internos, da Justiça e da Paz, Diosdado Cabello, tenha confirmado o reforço das forças de segurança e a presidente em exercício, Delcy Rodríguez, tenha declarado o estado de emergência e suspendido as aulas, o governo tem sido alvo de críticas pela sua falta de transparência.
Trak salienta que o decreto de emergência, embora justificado dada a dimensão dos danos, é "muito pouco transparente, uma vez que não especifica exatamente o que abrange". Esta atitude não é nova, mas num momento de crise torna-se ainda mais premente para uma população que se encontra, em muitos casos, isolada das comunicações na sequência do colapso das redes telefónicas e da internet.
"A crise vai levar as pessoas a questionarem-se: até que ponto é que esta senhora — a presidente interina, ou seja lá qual é a designação — sabe realmente como gerir uma crise como esta?", interroga-se Carlos Malamud, investigador sénior do Instituto Real Elcano, que defende que esta resposta constitui um teste crucial para o governo. Malamud acrescenta que, embora Delcy Rodríguez, o seu irmão e Cabello detenham o poder, a sua posição é de "maior fragilidade política do que sob o regime de Maduro". O "protetorado" de Trump O cientista político venezuelano salienta que os Estados Unidos assumiram o controlo de facto sobre as decisões de política pública, incluindo a legislação relativa aos hidrocarbonetos e à mineração. Carlos Malamud descreve abertamente esta influência como um "protetorado". Este estatuto pode ser interpretado de duas formas: por um lado, pode facilitar uma ajuda internacional mais rápida e substancial para aliviar os efeitos do terramoto, levando outros governos de direita da região a demonstrar solidariedade, em consonância com a posição de Washington.
A estratégia dos EUA, que os especialistas descrevem como um plano em três fases que envolve estabilização, extração de recursos e democracia, foi posta em causa na sequência da catástrofe. Juan Manuel Trak adverte que o terramoto teve um impacto direto na fase de recuperação desta estratégia política, obrigando as autoridades a desviar o seu foco de uma agenda centrada na extração de recursos para uma centrada exclusivamente na sobrevivência da população civil.
Susana Gratius insiste que o plano é, na sua essência, de natureza "extrativista", uma linha de argumentação que associa à famosa frase de Donald Trump "vamos governar o país", em que o interesse principal parece ser o controlo do setor petrolífero, em vez do bem-estar do povo venezuelano.Impacto nas infraestruturas
O potencial impacto na infraestrutura petrolífera acrescenta uma dimensão devastadora de complexidade à crise humanitária. "Se este desastre afetar a infraestrutura petrolífera, obrigará o país a alterar a sua estratégia, uma vez que terá de redefinir as suas prioridades… agora a tarefa é reconstruir um país cuja infraestrutura já se encontrava muito, muito degradada", afirma Juan Manuel Trak, de forma categórica.
Os números do Financial Times relativos à dívida externa de 240.000 milhões de dólares já representavam um fardo pesado antes do terramoto; agora, com a necessidade de reconstruir as infraestruturas civis, essa dívida parece um objetivo inatingível sem uma reestruturação de grande alcance que, por enquanto, está a ser travada pela instabilidade.
Por seu lado, o Fundo Monetário Internacional (FMI) indicou que centrará parte das discussões entre a organização e o Governo venezuelano na forma de dar resposta às necessidades adicionais do país na sequência dos sismos.
Em abril passado, a organização retomou as relações com a Venezuela, que se encontravam suspensas desde 2019. Desde então, as relações com o governo interino têm-se mantido estáveis, com vista a concluir os procedimentos técnicos que permitam ao país recuperar o acesso aos instrumentos financeiros do FMI no futuro.
Esta situação compromete gravemente os planos de recuperação da administração norte-americana e o seu chamado "plano de três fases" — uma ambição que já estava em contradição com um setor que sofreu 30 anos de desinvestimento acumulado. Neste contexto, Carlos Malamud salienta que, embora houvesse expetativas de uma reabertura, o investimento estrangeiro no setor petrolífero é "bastante limitado" e o quadro jurídico continua a ser insuficiente para oferecer garantias.
O docente da UAM acrescenta que, dado que a empresa estatal venezuelana de petróleo e gás (PDVSA) já se encontrava em "condições muito precárias", a capacidade real do país para extrair petróleo bruto e gerar os recursos necessários à reconstrução está gravemente comprometida, o que complica quaisquer projeções económicas a curto prazo.
O epicentro em Carabobo atingiu áreas vitais, tais como as refinarias nesse estado e em Falcón, bem como o porto de Puerto Cabello, paralisando um motor económico que o "plano de três fases" pretendia pôr em marcha.
Esta situação compromete gravemente as projeções de investimento estrangeiro, que Malamud já tinha descrito como "limitadas" e comprometidas por um quadro jurídico inadequado que ainda não foi devidamente estabelecido.
O papel da ajuda humanitária
De acordo com relatórios das Nações Unidas, quase 8 milhões de pessoas já necessitavam de assistência antes de quarta-feira, e o risco de uma nova onda migratória é muito real.
Países vizinhos, como a Colômbia e o Brasil, que já sofreram as consequências de ondas migratórias anteriores, enfrentam agora o dilema de como gerir a renovada pressão migratória num contexto regional em que a tolerância em relação aos movimentos populacionais diminuiu consideravelmente.
A ajuda internacional está a revelar-se um fator fundamental para evitar um colapso ainda maior, mas também uma fonte de atrito político. A ONU, através do seu responsável pela ajuda humanitária, Tom Fletcher, confirmou que está totalmente mobilizada e em contacto estreito com a equipa em Caracas liderada por Gianluca Rampolla, enquanto organizações como o Gabinete das Nações Unidas para os Serviços de Projectos (UNOPS) e a Agência das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) manifestaram a sua disponibilidade para prestar assistência na sequência dos danos extensos causados a habitações e infraestruturas essenciais.
Malamud defende que a existência de uma espécie de protetorado de facto sob a influência dos EUA facilita uma ajuda mais rápida e substancial, ao mesmo tempo que molda a postura de outros governos da região. No entanto, esta perceção é objeto de debate; enquanto alguns a consideram um mecanismo essencial de estabilização, Gratius adverte que o interesse internacional, em particular o de Washington, poderia ser interpretado "como parte de uma lógica extrativista que visa dominar o setor energético em vez de dar prioridade à recuperação integral da população".
Entretanto, o tecido social e político continua sob pressão. Embora a líder da oposição, María Corina Machado, tenha apelado à calma, à força e à unidade entre todos os venezuelanos, os analistas continuam céticos quanto à possibilidade de haver alguma mudança na dinâmica de confronto que tem caracterizado o país nos últimos anos.
Malamud salienta que "são precisos dois para dançar o tango", manifestando dúvidas quanto à capacidade do governo e da oposição de pôr de lado as suas diferenças profundamente enraizadas para resolver a questão.
A realidade imediata é que milhares de cidadãos passaram a noite ao relento, com serviços básicos como a eletricidade, o gás e a Internet cortados, e o Aeroporto Internacional de Maiquetía fora de serviço.
O terramoto não foi a causa da crise, mas funcionou como um espelho, refletindo a imagem de um Estado sobrecarregado, onde a reconstrução não será apenas uma questão de reparar edifícios, mas de tentar manter um contrato social que foi gravemente fragilizado pela inação, pela falta de transparência e por anos de governação que não conseguiram colocar a população no centro das suas prioridades.
Ebbaba Hameida / 26 junho 2026 06:17 GMT+1
Edição e Tradução / Joana Bénard da Costa - RTP